O CEO da Generali Portugal queixa-se da mudança de legislação que permite o aumento das indemnizações por acidente de trabalho. As empresas vão ter de pagar mais para manter as provisões técnicas em segurança.
O administrador Delegado da Generali Portugal, Santi Cianci, alerta para o facto de haver aspetos da nova lei que os tribunais vêm interpretando de uma forma extensiva e se traduz em benefício dos sinistrados mais idosos. Esta medida, diz Santi Cianci, não estava suficiente clara e, por isso, as companhias de seguros não provisionaram por completo esse risco. As condições de exploração do ramo acidentes de trabalho têm vindo a deteriorar-se e o Instituto de Seguros de Portugal exige o equilíbrio técnico do ramo até ao final de 2016, o que deverá levar a “um aumento médio entre 30% e 40%” do custo dos atuais riscos. Isso exige dos operadores a aplicação de padrões técnicos de subscrição e análise do risco e de prudência, que não foram, infelizmente, sempre observados nos últimos anos.
A Generali, ramos reais, acaba de passar a sociedade de direito português. Porquê este caminhar em contraciclo com as restantes seguradoras estrangeiras?
Não sei quais as razões que movem as outras companhias a fazer exatamente o oposto. Provavelmente, aspetos mais inerentes a razões fiscais, mas no nosso caso, trata-se de uma total coerência com a nossa ideia de apostar no País em que estamos presentes desde 1942, onde a companhia teve um crescimento acentuado nos últimos dez anos. E a dimensão do que é hoje uma sucursal da Generali Itália, justificava que fosse confirmada como companhia local. Além do mais, por que também já temos a Generali Vida constituída como companhia local desde 1990. Desde então, estávamos na espectativa de que os ramos reais passassem também a empresa de direito português, como sociedade anónima e isso constitui um incentivo e reconhecimento de confiança no País e nos seus profissionais.
Qual o volume de prémios da Generali Portugal em 2014?
Somando as duas companhias, ultrapassámos os 200 milhões de euros em prémios. Nos ramos Não Vida fechámos com 133 milhões de euros e no Vida com 69 milhões. No total das duas seguradoras representa um crescimento de 10%. O Não Vida cresceu 2% e o Vida 25%.
Ainda na passagem a SA, quer dizer que a empresa está a reforçar a aposta em Portugal?
É uma clara aposta, até porque acreditamos que os piores momentos já passaram. Existe uma tímida mas clara retoma da economia e do próprio mercado, que passou por momentos muitos difíceis. A partir de 2008, assistimos a uma constante degradação dos níveis de rentabilidade no mercado que, como um todo, não cresceu. Agora, com a retoma da economia, esperamos que o mercado segurador possa ter uma recuperação.
Durante a crise quais os ramos que mais sofreram?
Em primeiro lugar, o Acidentes de Trabalho. E o Automóvel teve também os seus momentos difíceis. Mas, o Acidentes de Trabalho é uma situação que deverá ser a principal preocupação do mercado, para se restabelecer os níveis de sustentabilidade. Neste momento, o ramo, a nível de mercado, como um todo, não se sustenta. Tem gravíssimos prejuízos.
De quanto?
Considere que o rácio combinado do mercado é de 140%. Recebe 100 e paga 140.
Há sinistros a mais?
Há uma situação difícil provocada por uma lei que favorece as pequenas incapacidades e o aumento de desemprego e a redução da atividade económica pressionam os proveitos do ramo. De facto há excessivas reduções de taxas, que são insuficientes para sustentar o risco. E por outro lado, uma lei que precisa de estar mais atualizada para os desafios do futuro.
Há falta de provisões no ramo Acidentes de Trabalho devido a essa situação?
Há provisões que devem ser claramente reforçadas e todas as companhias o estão a fazer, mas isso levou a uma situação de desequilibro técnico.
Como é que vão resolver isso? Vão aumentar os prémios?
Os prémios do ramo Acidentes de Trabalho têm de aumentar entre 30% e 40% até 2016, segundo as minhas contas. O Instituto de Seguros de Portugal pediu que todas as companhias tivessem o rácio equilibrado até ao final de 2016.
Nas pequenas empresas esse aumento terá um grande impacto.
Estou a falar em média. Há empresas que têm já os preços adequados. No caso da Generali, nós criámos recentemente uma estrutura que pode permitir aos nossos clientes reduzir esse impacto nas taxas. Vamos assisti-los para que possam ter uma melhor prevenção do risco.
Em que consiste essa parceria?
Temos técnicos e engenheiros à disposição dos clientes, junto dos mediadores e corretores, para que possam identificar as situações de risco nas empresas.
E o ramo automóvel, também foi afetado pela crise?
A crise levou a um menor impacto da sinistralidade, que nos anos de 2012 e 2013 diminuiu, mas também levou a uma diminuição dos prémios subscritos. Mas desde o segundo semestre de 2013 já percebemos uma maior utilização dos veículos e uma maior frequência dos sinistros. Será necessário também rever os níveis de sustentabilidade do ramo automóvel no mercado como um todo.
Diz então que os preços também vão ter de subir no automóvel. Não há uma concorrência muito forte neste ramo?
Há uma concorrência fortíssima. Principalmente nas regiões de maior densidade geográfica, nas maiores cidades, como Lisboa e Porto.
As seguradoras com estruturas mais pequenas são as que conseguem fazer preços mais baratos, como as telefónicas e as online?
A minha ideia sobre as companhias online, caracterizadas por serem low cost, é que não têm tido o crescimento que esperavam. É que existe uma necessidade de pós-venda que não é a mesma que é dada por um mediador. Ainda estamos convencidos que o canal tradicional, pelo menos na fase de assistência aos clientes, é a melhor. Mas ninguém pode negar que o acesso às simulações online é ótimo. Assim, desenvolvemos um sistema de multi-acesso, dando prioridade aos potenciais clientes de poderem, sem algum aumento de custo, poder utilizar a simulação e mudar a sua apólice para a gestão de um dos nossos mediadores à sua escolha.
Quais os ramos em que a Generali vai apostar nos próximos tempos, saúde, reforma?
Do ponto de vista da pensão de reforma, seria importante que as pessoas se convencessem a fazerem uma poupança particular. No caso da Generali, o crescimento do ramo Vida deve-se em grande parte a planos complementares de reforma, a pessoas que se preocupam com o seu futuro. A nível mundial, gerirmos mais de 400 mil milhões de prémios de fundos de pensões e também temos essa vocação em Portugal. E temos uma das maiores rentabilidades do mercado. No ano passado, tivemos uma rentabilidade de 3,5%, relativo aos últimos três anos.
Uma reforma da Segurança Social para um sistema com três pilares seria uma vantagem?
Sim, mas teria de haver a reposição dos incentivos fiscais que foram reduzidos.
Mas a subscrição dos Planos de Poupança Reforma (PPR) diminuiu com a diminuição dos benefícios fiscais?
Não decresceu, mas há outra razão para isso, houve muita transferência de ativos dos bancos para as seguradoras.
Então só se consegue uma reforma do sistema com benefícios fiscais?
Não. Eu faço essa poupança independentemente do benefício fiscal. Mas não tenho a menor dúvida de que pode ser um fator apelativo, um encorajamento do Estado para fomentar a constituição de complementos de reforma.
E na saúde?
No ramo saúde quase que crescemos 10% em 2013. Neste ramo vamos fazer uma aposta estratégica, pois acreditamos que será o ramo de maior crescimento no mercado português. Ainda não tenho os dados finais de 2014, mas provavelmente é já o segundo ou terceiro ramo com maior peso na produção do setor.
Carlos Caldeira
in: OJE.pt
